Quem cresceu, assim com eu, escutando Mercedes Sosa, tinha na imagem dela uma releção maternal. Isso era muito estranho pois as vezes eu quase confundia na minha cabeça a imagem de La Negra com a de minha mãe. Foi dela que veio a admiração e o respeito pela cantora Argentina, e continuado nos anos seguintes pela minha irmã, que também deve ter este mesmo sentimento maternal que eu desenvolvi ao longo dos anos, mas com uma enormidade maior de respeito, admiração e idolatria.
Cresci escutando Gracias a La Vida nas fitas cassetes de minha mãe, destrinchando as letras de suas músicas e ouvindo as incríveis histórias de sua vida e de como ela tinha participado da minha e da minha família. Lembro o pai contando do famoso show no Musicanto, em Santa Rosa, abaixo de chuva e com ares de Wodstoock. Semana passada, quando estive lá, fiz questão de perguntar pra algumas pessoas sobre o show, se elas estavam lá. Muitos lembravam como um fato marcante em suas vidas.
Parece que ela recém tinha voltado da Europa, sedenta de justiça social, altamente politizada por la nueva música Argentina, e no palco transparecia isso com muita força e energia, fazendo com que sua voz ficasse mais alta ainda, para ser escutada com clareza por toda a América Latina.
Meu primeiro encontro com Mercedes foi em 2007, em sua turnê pelo país. Sabia que ela estava doente e que poderia ser minha última oportunidade de vê-la e conhecê-la pessoalmente. A Shana havia feito algumas participações em shows dela, e depois faria outras, e tinha acesso ao camarim e amizade com a família, principalmente com o filho que cuidava da carreira dela. O show estava lotado e emocionante. Cheio de personalidades da política gaúcha, principalmente os da Esquerda, ou que um dia foram, que cantavam e vibravam com um lenço vermelho que por um momento ela agitou, sentada em sua cadeira já cansada da doença. Nem o famosos NO, NO, NO TE VÁS surpreendente do público brasileiro, por se tratar de um pedido de bis argentino, algo como MAIS UM, MAIS UM, foi capaz de fazer La Negra voltar para um mais um número. Estava chegado ao fim para todos, mas para mim ainda era reservado um momento final, e especial.
Amontoados na porta do camarim, pedindo acesso e reclamando tratamento de vips ou amigos íntimos de Mercedes, pude ver vários músicos gaúchos e aqueles emocionados políticos de antes. Queriam entrar e saudar Mercedes. Queriam uma foto, um último contato. Mas foram barrados sem qualquer cerimônia. Nós, para a surpresa desses todos, entramos autorizados pelo filho de Mercedes. Na frente, a Shana, comigo e com a mãe pelas mãos. Orientados por ele (pena não lembrar seu nome, ontem mesmo vi sua cara triste no velório da mãe) esperamos na porta até que ela se preparasse. Em seguida, entramos em seu camarim e fomos recebidos por uma divindade, uma rainha num altar centralizado e rodeado de flores e presentes. A Shana foi logo lhe dando um beijo, trocaram carícias íntimas e a Shana, visivelmente emocionada, apresentou a mim e a mãe para ela. A mãe soluçava choros. Eu estava mais na vontade enorme de toca-la para comprovar se era de verdade, se não estava na frente de algum ser que vemos apenas em revistas, ou homenageamos como santos em altares de capa de disco.
(escrever em espanhol para mim é uma dificuldade, então desculpem qualquer erro)
- Mercedes, este é mi hermano, Diego! - disse a Shana.
- Hola Diego. Viene acá.
Eu me aproximei e lhe dei um beijo. Fiquei acocado na frente dela, que me olhou firme nos olhos e, como faria minha mãe depois de estarmos longe por muito tempo, no papel de una madre protetora e cuidadosa, ela disse:
- Tiene ido a escola?
Na hora eu fiquei emocionado, numa mistura de alegria e surpresa. Ela tinha, num instante pleno de atenção dedicada a mim, que estava ajoelhado em sua frente como a esperar uma benção, se comportado como a mãe distante que sempre tivera sido. E não perdeu a oportunidade de num momento, no único e verdadeiro momento de encontro em nossas vidas, mesmo que estivéssemos sempre juntos pela forma como eu a escutava e ela por saber e ter consciência de ter outros filhos como eu, se portar com o compromisso de saber que eu precisava de uma educação correta para saber, quem sabe, finalmente e aos poucos destrinchar as suas letras que falavam tanto de liberdade, igualdade social e justiça.
Sou grato a minha irmã por aquele dia que nunca esquecerei. Sou grato a La Negra por ter tocado na minha infância, me amadrinhado na adolescência e me acompanhado na vida adulta. Ela ainda vai tocar muito em mim e para mim. E seria diferente se minha mãe não tivesse dito, eu ainda pequeno e com meus irmãs ao lado, que ela era a maior cantora do mundo. E quando ela cantava, todos cantavam. Mesmo abaixo dágua, mesmo no computador, na fita cassete, ou em meu coração por muitos e muitos dias que ainda virão sem eu poder reencontrar com ela.
Ontem perdemos também a Cuca. Ela vinha doente e agonizando já a alguns dias, duplicando o sofrimento de minha mãe. A gente se apega aos bichos, não adianta. A Cuca era parte da família, e segundo a mãe, por vezes até falou. Parece brincadeira, mas eu acredito nela. Se pensarmos nas diversas formas de comunicação existentes podemos entender como um bicho tão pequeno pode se expressar para nós, transmitir alegria e conforto, ajudar nos momentos difíceis e se alegrar conosco. A Cuca sabia exatamente o que acontecia ao seu redor, sabia diferenciar a verdadeira face de todos nós, e transmitia uma energia positiva por se comportar sempre como um ser humano carinhoso que por descuido divino não pode ser gente. Ou era, e somente se protegia das coisas ruins de ser um humano em quatro patas.
A Cuca não gostava de crianças pois elas a tratavam como um brinquedo devido ao seu tamanho. Mal sabiam elas, e nem tinham como saber devido a pouca idade, que a Cuca amadureceu antes de todos nós, e duma forma que nunca entenderemos.
A semana começa triste e com perdas. Seja pela perda daquela que admirávamos pelo talento e pela importância e toda a nossa vida, ou pela perda de uma pequena cachorrinha de nome Cuca, que não gostava de pisar da grama, quase não latia, e que no Natal era vestida de Mamãe Noel pra gente não esquecer das coisas importantes de vida como amizade, companheirismo, fé na gente e nas pessoas, amor, alegria. E fazíamos isso na imagem de uma cachorrinha que, se quisesse, em todos os Natais pegaria cada um de nós no colo para fazer lembrar de tudo isso. Mas ela não fazia. Não porque não pudesse. A Cuca não gostava de lidar com crianças. Elas não lhe entendiam devido a pouca idade que tinham. Daria muito trabalho, e ela preferia a descrição de sua idade adulta, e ficava toda de vermelho, deitada no sofá e nos olhando envoltos em presentes e sorrisos breves.
Ficamos duplamente órfãos. E saudosos...
OKIDOKI
D.G.M
05 e 06.10.2009